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“ZERO-UM”

Baseado em uma história verídica – Por Gil DePaula

 

Esta é a terceira história do “Projeto Universo do Homem Negro”. Agradeço aos amigos que dispuseram de um pouco do tempo deles, e enviaram seus comentários sobre as outras histórias. Estejam a vontade para realizarem novas avaliações.

 

Ela sentia-se imensamente feliz. Tão feliz que até lhe dava medo. Marília nunca havia visto tão boas qualidades em uma única pessoa. Inteligente, parceiro, dedicado, esposo amoroso, extremamente correto, em resumo; Wellington era um ser brilhante do ponto de vista pessoal e profissional.

Ele sempre era o primeiro em tudo que se relacionava a profissão que amava. E como gostava do militarismo! Foi o primeiro colocado na turma do NPOR quando foi para o exército. Mas seu sonho era ser um oficial da PM, um oficial do BOPE para combater o crime pesado, era o que dizia.

Nele, não havia traços de soberba. Ele fora forjado nas dificuldades e nos embates pela vida que, geralmente, as pessoas negras sofrem. E, simplesmente, queria ajudar a todos.

Quando passou no concurso para oficiais da Polícia militar, veio correndo contar para Marília. Seus olhos brilhavam. A sua felicidade era tamanha, que resolveu pedi-la em casamento. Mas o medo a fez titubear, e ela lhe disse que tinha medo de ficar viúva. Ele riu e respondeu que viveriam juntos até ficar velhinhos. Até terem bisnetos. Sua risada a contagiou e ela aceitou ser sua mulher.

O curso de formação de oficiais começaria dali a quarenta e cinco dias. Ele, por isso, insistiu com ela e com os pais dela, para casarem antes que ele iniciasse o curso, pois passaria cinco meses se formando. Casaram e passaram cento e oitenta dias sem se verem.

Ele foi o primeiro da turma. Voltou mais magro, saudoso, e despejou todo seu amor em cima dela. Marília se via em um conto de fadas e Wellington era o seu príncipe encantado de carne, osso e alegria.

Marília fazia questão que o uniforme do seu tenente estivesse sempre bem passado e, às vezes, até o engomava, seguindo uma receita da mãe dela, para que as roupas ficassem impecáveis.

Dificilmente, Wellington falava sobre o que acontecia no seu trabalho. Era visível que não desejava preocupar a esposa. Entretanto, um dia, queixou-se de alguns praças que comandava. Falou que estava tendo problemas com um sargento e um cabo do BOPE, que relutavam em obedecer a algumas de suas ordens, e que procuraria resolver “na boa”.

Em uma quinta-feira, ao vê-lo tão alegre preparando-se para o trabalho, seu coração ficou apreensivo, porque a alegria dele, era decorrência de uma missão que ele e seus comandados iriam realizar no meio da mata, próximo da cidade de Luziânia. A inteligência da PM, havia levantado que uma quadrilha de assaltantes de bancos faria um encontro em um sitio, supostamente, pertencente, a um conhecido traficante de drogas. Eles teriam a missão de vigiar as cercanias do local.

O cabo Denílson estava há vinte anos na PM. Nesse tempo já respondera a três processos, todos por praticar violência contra alguém. Contudo, ele detinha fama de valente e obstinado, no cumprimento dos seus deveres como policial. Naqueles anos de polícia fez vários amigos dentro da corporação, porque nunca deixava um companheiro na mão.

Denílson estava com quarenta e um anos, sentia-se frustrado por não ter passado da patente de cabo ao longo daqueles anos. Agora, teria que obedecer a um tenentezinho. Um negrinho inexperiente de vinte e poucos anos, recém chegado, que recebia um soldo quase o dobro do seu. Para ele não interessava se o cara era o “zero-um” em tudo que fazia. Contra a selva do crime, o que valia era a experiência. O conhecimento da bandidagem. E pior: o cara era um completo “Caxias”. Tudo tinha que ser certinho. Na vez que ele deu um tapa em um vagabundo, o tenente encrespou. E ele, só não desceu o braço no tenente, porque ficou com medo da punição. Agora, sairiam juntos para uma perigosa missão. Denílson não permitiria que algo desse errado.

A caveira com a faca atravessada do queixo para a cabeça, com as duas pistolas por trás, símbolo do BOPE, estava tatuada em seu peito. O tenente Wellington queria deixar evidente o orgulho que sentia em pertencer àquele batalhão da polícia militar. Ele, preparava-se, para a sua primeira missão como comandante, e estava ciente da sua pouca experiência. Contudo, compensaria com a determinação que sempre o acompanhou ao longo da vida. Por outro lado, sabia que os três homens que o acompanharia eram escolados em razão de estarem há muitos anos na ativa da polícia militar. Seriam quatro: ele, o sargento Vespúcio, os cabos Mengávio e Denílson. Se dependesse apenas dele, Denílson não faria parte da equipe. Ele não gostava da truculência e da indisciplina do seu subalterno. Todavia, seu superior determinou que o praça fizesse parte do grupo naquela missão.

Aquela região, próxima à cidade de Luziânia, era cercada por sítios. A quadrilha de assaltantes, há muito era monitorada pela inteligência da polícia. Era de conhecimento que eles se reuniam, para o planejamento dos assaltos, no sítio Angorá, de propriedade de Marconi da Família, conhecido traficante, que não participava dos assaltos, mas fornecia parte da logística que os criminosos necessitavam.

Os policiais do BOPE, tem como incumbência a monitoração da chegada dos bandidos ao sítio, que deverão comunicar ao comando central do batalhão, para que uma nova equipe composta por mais homens seja enviada.

O tenente e sua equipe armaram a campana na mata, às margens da estrada, a dois quilômetros do sítio Angorá, em um local privilegiado, donde podiam observar, sem serem notados, o movimento de todos os veículos que por lá passassem.

De repente, a sorte pareceu sorrir para os militares. Dois dos quatro carros que haviam sido monitorados pela inteligência da PM, passaram por eles. Uma Hilux preta e uma Mitsubishi branca, cuja as placas foram identificadas. E, para maior surpresa dos policiais, a duzentos metros de onde estavam eles, a Hilux preta para à beira da estrada, o outro carro que vinha atrás passa por eles, buzina e continua o seu trajeto.

Os dois homens que estavam na camionete preta desceram para catar os frutos de um manguezal bastante frondoso e carregado, que realmente chamava a atenção de quantos por ali passassem. O tenente Wellington, percebendo a oportunidade de capturar aqueles dois quadrilheiros, deu voz de comando aos seus homens, ordenando que agissem para efetuar as prisões.

Os bandidos foram surpreendidos com a rápida ação perpetrada pelos homens do BOPE, que os cercaram, e se entregaram sem resistência.

Mesmo assim, um entrevero ocorre entre o cabo Denílson e um dos assaltantes, que chama o policial de meganha de merda.

Ao escutar o tiro, o tenente Wellington, que havia se afastado alguns metros dos seus homens, se volta a tempo de ver o cabo Denílson com a pistola na mão e o bandido com quem ele discutira, caído com a cabeça estourada. Revoltado com o que acabara de acontecer, pois os pulhas estavam dominados e algemados, ele dá voz de prisão para o cabo Denílson.

Quando o telefone tocou em sua casa, Marília sentiu o coração apreensivo. A voz do outro lado era do melhor amigo do seu marido.

– O que aconteceu com meu marido? – perguntou Marília.

A voz lhe diz que Wellington levou um tiro. Ela quer saber se ele morreu. O homem diz achar que não. Mas o coração dela diz que sim.

A manchete explodiu em todos os jornais e nas emissoras de televisão de Brasília: “Tenente do BOPE morre em confronto com quadrilha de assaltantes de banco”!

A matéria dos jornais trazia também, a informação que dois dos bandidos morreram no confronto, e no momento, tanto a polícia de Brasília, quanto a de Goiás, empreendiam uma caçada furiosa aos demais componentes da quadrilha.

Na sexta-feira, o corpo foi velado no Comando Geral da PMDF. Às 16h12, o caixão foi recebido no cemitério Campo da Esperança com uma salva de tiros, realizada pelos policiais do BOPE. Um helicóptero sobrevoou o cemitério despejando pétalas de rosas, enquanto os demais militares prestavam continência.

A família estava despedaçada. A avó de Wellington, conhecida por dona Pequena, desmaiou e teve que ser levada a um hospital. Marília tinha certeza que a qualquer momento acordaria daquele pesadelo.

A história oficial do ocorrido na mata no dia em que o tenente Wellington faleceu, conta que ele foi atingido ao trocar tiros com os membros da quadrilha. Todavia, alguma coisa não se encaixava, e as investigações começaram. Os investigadores descobriram que o tiro acertado no tenente foi dado de baixo para cima, entrando em seu abdômen, caracterizando que foi de muito perto.

No local onde se deu o suposto confronto, não encontraram várias marcas de tiros – como era de se esperar. As armas portadas pelo sargento e os cabos, praticamente não haviam sido disparadas. O normal seria que eles revidassem aos tiros com alto gasto de munição. Próximo ao local do suposto confronto não foi encontrado nenhum sinal de que pessoas tivessem corrido por lá. Não foram vistos galhos quebrados ou mato repisado.

E mais estranhamente, o comandante do BOPE, tenente-coronel Ângelo, proibiu que seus comandados, participantes do confronto, realizassem qualquer tipo de comentários sobre o assunto.

Marília, então, resolveu “botar a boca no trombone”: foi à imprensa e levou a ela todos os fatos obscuros do caso. Logo depois, foi recebida pelo secretário de segurança pública do Distrito Federal, que após ouvi-la, determinou, imediatamente, que o comandante do batalhão fosse afastado.

Os cabos Denílson e Mengávio e o sargento Vespúcio, foram obrigados a prestarem novos depoimentos, e confrontados com as provas mudaram a versão do que, hipoteticamente, havia acontecido.

O cabo Denílson acabou confessando que ele fora o autor do tiro, já que confundira o tenente com um dos bandidos. Perguntado porque não relatou esse fato antes, disse que; no primeiro momento, somente pensou em salvar o tenente Wellington. Quando percebeu o estado grave do seu superior ficou apavorado. Achou que se falasse do seu engano, não acreditariam nele. Agora, jurava que essa era toda a verdade.

Um ano, oito meses e três dias, minunciosamente contados por Marília. Um ano, oito meses e três dias de sofrimento e solidão. Um ano, oito meses e três dias, foi o tempo que levou para os três policiais, que participaram do assassinato do marido dela, terem a prisão preventiva decretada.

No pouco tempo que Marília viveu com Wellington ela esteve com o amor da sua vida. Ela ficou viúva muito cedo, porque escolhera casar com um homem brilhante. Porém, honesto demais!

 

“Sempre é hora de fazer o que é certo”
Martin Luther King

✣ Está história, é uma homenagem ao tenente Carlos Henrique Scheifer, morto em circunstâncias duvidosas ✣ 

 

Livros de Gil DePaula

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