Resposta ao Texto “Este País Está Muito Chato”

Por Gil DePaula (Texto originalmente publicado em 10 de abril de 2025)

Este-pais-esta-1 Resposta ao Texto “Este País Está Muito Chato”

Na última semana, recebi de vários amigos um texto intitulado “Esse país está muito chato”. A pessoa que o escreveu começa dizendo que, ao longo dos seus 62 anos, viu uma mulher negra ser âncora de um programa televisivo e um homem negro fazer parte de uma trupe de humoristas pioneiros na televisão e, mais tarde, outro negro integrar um programa humorístico.

Assim que li essas primeiras considerações, me perguntei se, por trás delas, havia alguma ironia, burrice explícita ou a clara intenção de minimizar um problema que somente quem é negro é capaz de mensurar em toda a sua extensão.

Num país cuja maioria esmagadora da população sempre foi negra, termos, ao longo da história da televisão, apenas dois humoristas de destaque e uma apresentadora não me parece grande coisa — e, com certeza, não é. Antes, parece-me ser a clara afirmação do preconceito institucionalizado.

Antes que alguém, por inocência ou vilania, diga que não havia atores negros, quero lembrar que centenas de negros, ao longo da história da televisão, participaram de novelas, filmes e programas. Entretanto, quase sempre na condição de subalternos. Os papéis que lhes eram dados: empregados domésticos, malandros, bandidos, motoristas — e por aí foi.

O “favor” ou a “concessão” feita ao permitir que três atores negros se destacassem ao longo dos 71 anos da existência da TV brasileira é, antes de tudo, vergonhosa, sem mérito, e desprovida de honestidade intelectual e humana — ou seja, uma verdadeira aberração.

Em outra parte do referido texto, a pessoa afirma: “Eu cresci entendendo que preconceitos significam estupidez, pois toda a minha formação se deu com bons exemplos de representantes, de todas as classes, em um país que normalizou a presença de todos em programas de televisão, onde tudo era discutido sem qualquer pudor.”

Esse trecho traz, maquiavelicamente, a manipulação implícita de fatos que podem passar despercebidos pelos menos avisados. Parte-se de uma premissa verdadeira — preconceitos significam estupidez — para uma conclusão totalmente falsa e afirmada sem pudor: “em um país que normalizou a presença de todos em programas de televisão, onde tudo era discutido sem qualquer pudor.”
Uma grande mentira. Apenas recentemente o número de negros nas novelas de televisão vem aumentando e, hoje, apenas uma mulher negra está à frente de um programa de destaque (Jornal Hoje).

Outra balela que o trecho traz é a afirmação de que tudo na televisão era discutido sem pudores. Outra mentira vergonhosa! A televisão nunca deu voz à população negra. Nunca permitiu, sequer, que existisse um programa conduzido por pessoas negras, que pudessem trazer à tona os verdadeiros problemas enfrentados por elas diariamente.

No mesmo texto, o autor faz referências a gays, gordos, travestis, anões. Acho até positivo que ele se lembre dessas pessoas. Apenas quero lembrar que elas sempre foram objeto de discriminação e piadas chulas — o que nunca aconteceu com o homem branco, considerado o padrão físico correto e aceito por seus pares.

Antes de concluir seu texto, o autor afirma: “Cresci entendendo de verdade o que era liberdade de expressão.”
Aqui, ele confunde liberdade de expressão com “tocar o foda-se” e nos expressarmos do jeito que quisermos. Liberdade de expressão é, antes de tudo, responsabilidade. É saber usá-la para avançarmos em todos os sentidos — principalmente no respeito para com todos — ao limitarmos nossas atitudes, palavras e ações.

Uma coisa, porém, tenho que concordar com ele: realmente existe muito mimimi. Há o mimimi da pessoa que, por qualquer coisa, se faz de vítima. Há o mimimi de quem se aproveita de quem está fazendo mimimi para fazer mimimi em cima do mimimi do outro — e por aí vai.

Tomara que, um dia, não tenhamos uma geração “chata”, como afirma o autor. Mas espero muito mais que não tenhamos gerações de preconceituosos, gerações de políticos ladrões, gerações de homens que não respeitam as mulheres — e outras mais.

Espero que as próximas gerações sejam de pessoas irmanadas no respeito e no amor para com todos.

Conheça Outras Publicações do Portal

Livros de Gil DePaula

www.clubedeautores.com.br — www.editoraviseu.com.br — gildepaulla@gmail.com

Terras dos Homens Perdidos – Gil DePaula (2017)

https://clubedeautores.com.br/livro/terras-dos-homens-perdidos

TDHP-1-1024x585 Resposta ao Texto “Este País Está Muito Chato”

Terras dos Homens Perdidos, de Gil DePaula, é uma ficção histórica que explora a fundação de Brasília e o impacto da construção da nova capital na vida de brasileiros comuns. A narrativa é ambientada entre 1939 e 1960 e segue o drama de Maria Odete, uma mulher forte e resiliente, que relembra seu passado de desafios e desilusões enquanto enfrenta as dores do parto. Sua trajetória é entrelaçada com a história de dois fazendeiros rivais e orgulhosos, ambos chamados Antônio, que lutam pelo poder em meio a uma teia de vingança, traição e tragédias pessoais.

A obra destaca o cenário do interior brasileiro e a saga dos trabalhadores que ergueram Brasília com suor e sacrifício. Gil DePaula usa seu estilo detalhista para pintar um retrato das complexas interações humanas e sociais da época, onde paixões e rivalidades moldam o destino de seus personagens e refletem as transformações de uma nação. A obra combina realismo com uma narrativa de intensa carga emocional, capturando tanto a grandeza da construção da capital quanto as pequenas tragédias pessoais que marcaram sua fundação​.

Para saber mais sobre o livro ou adquirir uma cópia, você pode encontrá-lo em sites como o Clube de Autores ou por meio do e-mail:

gildepaulla@gmail.com

O Baú das Histórias Inusitadas

https://clubedeautores.com.br/livro/o-bau-das-historias-inusitadas-2

O-Bau-das-Historias-Inusitadas-1024x683 Resposta ao Texto “Este País Está Muito Chato”

Abra o baú, tire a tampa da imaginação e prepare-se para um banquete literário!

Nessa coletânea de 18 contos temperados com pitadas de ficção científica, goles de aventura, colheradas generosas de ironia e uma lasquinha de romance, o que você encontra é um cardápio para o espírito — daqueles que alimentam o riso, o susto e a reflexão.

Cada história é uma cápsula do inesperado: ora te joga no passado, ora no futuro, ora te deixa rindo de nervoso. Ideal para quem lê aos goles ou engole de uma vez.

“O Baú das Histórias Inusitadas” é leitura para todos os gostos — principalmente – para quem gosta de se surpreender.

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios *

*

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: