A Periguete

Por Gil DePaula (baseado na obra de Nelson Rodrigues)

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Quando Isaura, toda feliz, veio lhe contar que passara alguns dias no mesmo hotel em que Carlinhos se hospedara em João Pessoa, Jandira cruzou os braços e travou os dentes:

– Com o Carlinhos?

– Com ele mesmo.

– Mas ele foi fazer um curso pela empresa.

– É, e eu estava de férias.

À noite, quando o noivo chega à casa da sua cara-metade, encontra Jandira inquieta, andando de um lado para o outro e soltando fogo pelas narinas. Finalmente, ela para e lhe diz:

– Quer dizer que o “senhor” esteve a passear com Isaura em João Pessoa e não me disse nada. Não foi?

– Por coincidência, nos hospedamos no mesmo hotel, mas quem disse que passeamos juntos?

– Não passearam?

– Não! E por que tudo isso?

– Presta atenção! Isaura é uma periguete. Se insinua para todo homem. Já tomou um namorado da própria irmã. Se tem pinto, para ela é o suficiente. Quero você longe dela. Se encontrar com ela na rua, passe para o outro lado. Entendeu?

– Tá bem, tá bem! Mas chega aqui que estou com saudades…

No entanto, Carlinhos ficou atônito com a reação da noiva. Isaura era uma bela mulher, mas nunca lhe havia chamado a atenção. Já haviam se visto em barzinhos e em algumas festas. Tinham até alguns amigos em comum, e ele sempre tivera boa impressão dela. Achava-a até comportadinha. Não sabia daquele lado selvagem e predador que ela possuía. Como são as coisas, pensou, e deixou para lá. Todavia, no dia seguinte, a noiva voltou à carga:

– Carlinhos, você sabe que eu não sou ciumenta, não é?

– Of course – disse brincando, aproveitando para treinar o inglês.

– Mas vou te confessar uma coisa: só tenho ciúmes da Isaura. As mulheres geralmente têm pudores. Ela não tem. É uma sirigaita. Uma patife.

– Tudo isso? Você tem certeza?

Os dias passavam, mas as ladainhas de Jandira não davam tréguas:

– Você é um rapaz de família. Quer uma moça direita, não quer? Você sabe que eu nunca havia transado com ninguém, você foi o primeiro. Eu sou decente e lhe amo muito. Nós formamos um casal maravilhoso. Todos dizem, não é mesmo? E ela nunca te respeitaria como eu te respeito, não é? Não é?

– Claro, meu bem! Claro, meu bem! – disse o rapaz, sem muito argumento.

Sem se dar conta, Jandira foi transformando Isaura naquele personagem de filme que era para ser odiado, mas que, por alguma razão, o público acabava adorando e torcendo a favor.

– Carlinhos, você é um rapaz inteligente, bonito, mas é crédulo. Veja eu: sou sua segunda namorada e nós levamos oito meses para transar. Não foi? Se fosse aquela rameira, tinha ido para a cama com você no primeiro dia. E para quantos ela já deu? Sabe-se lá… Vou casar contigo sem que nenhum homem tenha tido intimidade comigo, a não ser você.

Carlinhos concordava com a noiva e, na sua mente, via Isaura vestida de diabinho, rebolando sensualmente e lhe chamando com o dedo indicador.

– Eu te respeito – continuava Jandira. – Nunca saio sozinha, não olho para outros homens e, se algum atrevido se atrever comigo, esfrego a minha aliança de noiva na cara dele. A Isaura jamais teria o meu comportamento. Seria capaz de te trair com o primeiro que aparecesse. Escuta o que eu digo: ela não presta! Ela não presta!

Ferreirinha ficou noivo e resolveu fazer um churrasco para comemorar. Amigo de longa data do casal Jandira e Carlos, convidou-os para o regabofe, que, na verdade, foi regado com a ajuda dos convidados.

Num canto, Carlinhos, um tanto alto, apesar de ter bebido apenas duas canecas de chope, baixa a voz e diz a dois amigos, como se estivesse confidenciando o maior segredo do mundo:

– Me disseram que a Isaura é a maior galinha, se atira para todo mundo e tomou um namorado da própria irmã…

– Peraí, Carlinhos – diz Alfredo. – Conheço a Isaura há muitos anos e essa história está mal contada. A irmã dela, há mais de vinte anos, mora no Canadá e é uns dez anos mais velha que a Isaura. Além do mais, ela sempre foi uma boa moça.

Mal Alfredo fecha a boca e o objeto de suas conversas surge em meio aos convidados. Isaura, linda como sempre, longos cabelos, cintura de pilão, as generosas pernas enfiadas numa calça jeans apertada, que forçosamente valorizava ainda mais suas belas curvas. Nenhum homem, amante do sexo frágil, deixaria de perceber. Aliás, até as mulheres, que, mesmo com uma pontinha de inveja, não conseguiam deixar de admirar aquele monumento.

Jandira vê o objeto do seu desafeto, que parece ainda mais brilhante naquela tarde. Uma raiva surda a domina, juntamente com um medo inexplicável. A simples presença de Isaura desnorteia seus sentidos.

– Vamos embora, Carlinhos! – diz ela. – Não quero contato com essa vagabunda.

Quando voltam para casa, Carlinhos também está possesso:

– Não é possível! Você só fala nessa mulher. É Isaura para cá, Isaura para lá! Isaura fez isso, fez aquilo e blá, blá, blá! Já vivo com ela na minha cabeça. Isso já é doentio. Não fale mais nessa mulher.

– Como posso deixar de falar? – diz a moça. – Se a toda hora fico sabendo de uma sem-vergonhice dela?

– Você é que sabe! Você é que sabe! – responde o rapaz.

E não teve jeito. Todos os dias, Jandira tinha uma novidade sobre a outra. Uma hora, alguém viu Isaura agarrada com alguém. De outra vez, ela havia se insinuado para um bando de rapazes. Alguém informou que ela estava tendo um caso no trabalho com um homem casado, provavelmente o próprio chefe. E por aí foi… Até que, um dia, explodiu:

– Vocês, homens, só gostam das vagabundas. Mulheres direitas como eu não são valorizadas. Todos os rapazes antes de você que eu quis, aquela infeliz me roubou. Somente você não me trocou. Eu te amo! Eu te amo!

O dia mais aguardado por Jandira finalmente chegou. Casaram-se e foram para a lua de mel. Na noite de núpcias, a noiva coloca uma linda lingerie branca, a cor preferida de roupa íntima para Carlinhos. A moça, toda lânguida, se enrosca no agora seu marido. Todavia, o moço não reage. Olha para ela com um olhar febril, mas perdido, e lhe diz:

– Não posso! Não posso! Por sua causa, me apaixonei por Isaura.

Do corredor do hotel, podia-se ouvir os dois chorando.

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Terras dos Homens Perdidos – Gil DePaula (2017)

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Terras dos Homens Perdidos, de Gil DePaula, é uma ficção histórica que explora a fundação de Brasília e o impacto da construção da nova capital na vida de brasileiros comuns. A narrativa é ambientada entre 1939 e 1960 e segue o drama de Maria Odete, uma mulher forte e resiliente, que relembra seu passado de desafios e desilusões enquanto enfrenta as dores do parto. Sua trajetória é entrelaçada com a história de dois fazendeiros rivais e orgulhosos, ambos chamados Antônio, que lutam pelo poder em meio a uma teia de vingança, traição e tragédias pessoais.

A obra destaca o cenário do interior brasileiro e a saga dos trabalhadores que ergueram Brasília com suor e sacrifício. Gil DePaula usa seu estilo detalhista para pintar um retrato das complexas interações humanas e sociais da época, onde paixões e rivalidades moldam o destino de seus personagens e refletem as transformações de uma nação. A obra combina realismo com uma narrativa de intensa carga emocional, capturando tanto a grandeza da construção da capital quanto as pequenas tragédias pessoais que marcaram sua fundação​.

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